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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Orquídea Negra - Parte 2



"Está sendo uma noite de um dia difícil
E eu estive trabalhando como um cachorro.
Está sendo uma noite de um dia difícil,
Eu deveria estar dormindo como um tronco"

- Beatles, A hard day's night

Londres, Inglaterra

Por mais que eu não me lembre de nada quando acordo, gosto da sensação de estar na Inglaterra. Esta terra já fora minha casa por mais de uma vez, e digam o que disserem sobre ela, sinto falta desta ilha.

- É ótimo estar em casa! Disse ao chegar no Reino Unido.
- Fale por você - disse Lúcia irritada - seu lobo Saxão.
- Qual o seu problema com Saxões? Indaguei curioso.
- Simples, eles nascem, respondeu seca.

Ignorei o mau humor, embora soubesse que era por minha culpa, mas tinha coisas a resolver.
Diferente da Espanha, nossa chegada na Inglaterra não chamou atenção.
Estávamos de frente ao famoso Big-Bem. O monumento estava muito iluminado e bonito, como se houvesse energia extra-sensorial nele, que não apenas sua iluminação elétrica normal.
Víamos um movimento grande pelas ruas. Pessoas de diversas épocas transitavam livremente misturadas a uma só. Logo ninguém se importara com um cavaleiro errante acompanhado de um lobo.
Conferi novamente o papel que o velho livreiro havia me entregado na Espanha. Mentalizei o nome da mulher que eu procurava e quando voltei a olhar ao meu redor, vi que um ponto brilhava mais ao longe em meio a uma mata.
Acelerei o passo, e corri em direção a ele.
Senti Lúcia me acompanhando, e de uma forma que apenas no espiritual acontece, um salto longo foi o suficiente para chegarmos ao ponto luminoso.
Caímos no meio de uma floresta.
Paramos para reconhecer o local e logo surgiram vozes , música, ruídos de um ritual, ou uma festa.
- Estranhos! Estranhos!-Dizia uma voz fraca que soava como um zumbido.
- Que coisa é essa? Perguntei.
- Uma fada ou uma espécie dela, algo como uma larva que um dia vai virar uma borboleta, concluiu Lúcia.
- A floresta parece estar cheia delas, percebi.
- Estamos em uma floresta inglesa, em um plano espiritual dela. Tudo que imaginar, tudo que já leu nos contos de fada podem estar aqui, explicou Lúcia, a Loba.
- De onde você vem, para ter tanto conhecimento disso tudo? Perguntei ao me surpreender com a familiaridade de Lúcia com o local.
- Diferente de você que é encarnado, eu vivo no mundo espiritual. Não sou apenas um visitante, desconversou Lúcia.
- Continuo achando que você ainda não me perdoou pela demora, assenti resignado.
- Perdoei sim, só estou esperando outras oportunidades para me vingar meu amado, disse Lúcia.

Nisso percebo as criaturas da floresta nos cercando. Alguns homens e mulheres, seminus, com armas primitivas, pintados e acompanhados de cães e pássaros se aproximavam de nós furtivamente.


Um homem enorme de barba, vestido com peles toma a palavra:
- Cumprimos nossa parte cão Saxão! Agora faz a tua! Tira tua carcaça imunda daqui antes que eu resolva aceitar teu insulto! Essa terra é nossa e não queremos tua laia aqui! Bradou o homem, obviamente me confundindo com um inimigo.

Respirei fundo e tentei me acalmar.
Meu instinto de luta começava a ferver dentro de mim, mas sabia que não ia adiantar nada entrar em conflito com eles.
-Não faça nada contra eles, avisou Lúcia baixinho para mim.
-Por quê? Eles querem nos atacar, respondi no mesmo tom.


-Eles são os Pictos. Junto com os Bretões combateram os Saxões há muitos séculos atrás. Por causa do seu cabelo claro, eles acham que você é um Saxão, inimigo mortal deles.
Eu não queria lutas desnecessárias, então respirei fundo e tentei o diálogo:

- Grande líder, não venho aqui para insultar seu povo, estou atrás de alguém que esteve aqui faz pouco tempo, apenas isso. Então estiquei o papel que havia me dado na Espanha.
Um homem manco veio correndo até mim, pegou o papel, saiu correndo de volta e o entregou ao líder. Ele abriu um sorriso ao ler o papel, falou algo que não consegui entender, e todos riram juntos.

- Esta vadia que você procura....tentou nos prestar respeito, mas no final acabou nos ofendendo, disse o homem ao ver que procurávamos Orquídea Negra. -Ela não sabe as luas corretas para nos agradar e nem as preces certas. Ela queria estar livre dos problemas que ocorreram no mundo físico, mas fez tudo errado. Por que você quer achar esta mulher? Perguntou o líder.
- Para fazê-la pagar, óbvio!! Menti, tentando ganhar sua simpatia e resolver logo a questão.

- Pois eu digo que vá a merda! Vá fornicar com os porcos! Gritou o líder Picto.
As pessoas riram, meu sangue ferveu, ele sabia que eu estava mentindo.

- Acha que me engana? - Continuou - Um cão maldito reconhece outro! Quero preço por essa informação!
Preço.

Na magia, no mundo espiritual, no mundo terreno.
Tudo tem um preço.
Não se pode tirar água sem deixar outro local com sede.
Quando se invoca os ventos, eles deixam de soprar em outro lugar e por aí vai.
O mesmo acontece aqui. Tudo tem um preço, e para a informação que eu precisava deveria pagar por ela.
Resignado com essas irritantes permutas, tentei me acalmar mais uma vez, então deixei meus pensamentos e voltei a questão:
- O que posso lhe oferecer grande líder?
Parou por uns instantes, coçou a barba então abriu um sorriso malicioso.
- Esse teu cão, é mágico não é? Quero ele, determinou o líder Picto.
- É uma loba, expliquei, e ela está fora de qualquer acordo.
O sorriso dele acabou.
- Então não terá a maldita informação, Saxão maldito!!! Gritou furioso.
Virei-me para Lúcia: - Vamos embora.
Porém ao me virar, escutei mais uma vez aquela voz irritante:
- Então tu achas que entra nas minhas terras e vais embora sem pagar nada? Quero um tributo por colocar tua presença imunda no que é meu! Quero a loba! Ameaçou o líder Picto.
Comecei a falar algumas palavras em voz baixa, olhei para ele mais uma vez.
- Vai me dar a droga da loba ou não? Cobrou o Picto.
Apenas balancei a cabeça negativamente.
O maldito riu, soltou as peles que o cobriam, segurou um tacape, alguns cães começaram a rosnar e a andar na minha direção.
Por fim terminei de dizer as palavras que eram necessárias. Sempre fui orientado a ser educado no mundo espiritual. Mas agora não havia mais tempo para barganhas e gentilezas. Eu estava sem tempo, sem paciência e ainda não havia chegado ao meu objetivo.
Então as palavras que eu havia proferido fizeram efeito.
Gritos de ameaças e zombarias foram substituídos por gritos de guerra indígenas, e lobos vindos de longe surgiram ao meu lado.
Abandonei minha forma humana e retomei minha forma de Lobo Branco do tamanho de um elefante.
Lúcia aumentou seu tamanho e se preparou para a luta. Minha tribo estava comigo agora, minha alcatéia.
Pronta para a guerra.
Se aquele homem estúpido queria uma briga, ele teria uma. Um cão maldito reconhece outro.

"E eu sinto meus músculos contraindo, sinto meu estômago rasgando,
Sei que não sou um homem, conheço minha cabeça por dentro,
É o sangue dos lobos, está pulsando como se fudesse minhas veias"
Misfits - Wolf's blood.


É curioso como em livros, filmes, etc, o mocinho apanha por intermináveis minutos e depois milagrosamente começa a reagir como se não tivesse sofrido nem um arranhão e que nem estivesse cansado. O velho clichê do herói. Funciona bem nos cinemas. Pena que não é real.

Quem escreve essas coisas, deixa bem claro que não sabe de nada. Geralmente uma luta de verdade não passa de alguns segundos, minutos, frações. Qualquer sinal de fraqueza, distração e cansaço podem ser fatais. Tudo é muito rápido e cruel, e se torna ainda mais rápido e cruel quando a euforia toma conta de você. A selvageria, a violência, a loucura. Tudo se mistura até você retroceder aos seus instintos mais primitivos. Mesmo após séculos de evolução humana, a euforia convoca nossos instintos de sobrevivência mais primitivos. Nem mesmo vivendo na Era Digital, não conseguimos apagar isso do nosso DNA.

O que me lembro daquela noite foi de deixar meus instintos falarem mais alto, deixar a euforia tomar conta de mim. E na forma de animal que eu assumi, o lobo Branco, ela chega muito mais rápido. Diferente dos humanos, os animais não lutam contra seus próprios instintos.
Lembro também daquele maldito se transformar em um urso e tentar me asfixiar mas não deu certo. O resto foi uma sinfonia de arranhões, mordidas, rosnados, gritos, sangue e escoriações.

Até nós dois percebermos que todos haviam parado de lutar, menos nós. O líder Picto se transformou novamente em humano, e eu mentalizei um guerreiro índio que eu já havia sido em uma vida passada. Novamente na forma humana, agora como um guerreiro índio norte-americano, em minhas mãos surgiram um tacape e uma machadinha. Saltei contra ele furiosamente, mas fui golpeado no rosto por ele. Escutei um grito, talvez alguém do seu povo, torcendo por ele, elogiando o golpe. Cambaleei para trás, levei uma cabeçada em seguida, depois fui agarrado e arremessado para longe.


Levantei-me com dificuldade.
Ergui a cabeça e vi que meu adversário ria e batia no peito, mostrando estar forte e pronto para mais. Aquilo me irritou e arremessei a machadinha de onde eu estava acertando-o bem no seu rosto. A machadinha cravou fundo e eu escutei ele gritar de dor. Corri em sua direção e bati com toda a força o tacape na sua cara. Fui repetindo os golpes até a machadinha se soltar daquela cara imunda. Então escutei meu povo gritar comemorando meu contra ataque.
Quando ele caiu no chão, eu não parei de golpear.
Ainda assim ele pôs as mãos para evitar os golpes, então os golpes começaram a acertar seus braços também. Os braços e o rosto do inimigo sangravam, mas ele não parava de se defender, e eu de bater.
Senti um chute curto do adversário nas minhas pernas, mas ainda assim não parei de atacar até sentir um outro chute no joelho esquerdo. Não chegou a levar minha perna para trás, mas o golpe me deixou dormente, dolorido.
Pressentindo que eu podia cair, resolvi me deixar cair em cima ele, na forma de Lobo Branco.
Imediatamente ele assumiu a forma de urso, e enquanto eu mordia seu pescoço ele enfiava as garras nas minhas costas e cabeça. A luta havia tomado um novo fôlego e nenhum dos dois queria ceder.
Continuei a ouvir gritos da minha tribo e dos Pictos. Mas desta vez os dois lados, índios e pictos gritavam, até que algo nos chamou atenção, algo que acontecia ao nosso lado:
Um velho feiticeiro celta, um druida estava sentado ao lado de um velho índio da minha tribo. Estavam conversando sentados e olhando para nós, falavam um com o outro, sem tirar os olhos de nós.

Ambos riam e apontavam em nossa direção.
Percebendo isso paramos com a luta, meio sem graça.
Afastamo-nos empurrando um ao outro, e retornando a nossa forma humana.
Para mostrar que não estava machucado, meu orgulhoso adversário limpou o sangue do rosto, cuspiu no chão e fez sinal negativo com a cabeça, como se aquilo não tivesse sido nada, então seu povo gritou.
Eu juntei a machadinha do chão com pedaços de cabelo e sangue do homem-urso, ergui em direção ao meu povo e todos gritaram em júbilo.
Depois, andamos meio tortos em direção aos homens sagrados: o Druida e o Cacique.
E antes que eu pudesse perguntar o porquê do Grande Chefe estar lá, ele se adiantou e me respondeu:
- Pequeno Sol estava demorando para me trazer lenha, fiquei com frio e vim ver aonde ele estava. Vim parar aqui. Explicou o Cacique da minha tribo.
Pequeno Sol é o membro mais novo da minha alcatéia. Era chamado assim, pois era jovem, pequeno e tinha a pele mais clara da tribo. Tão clara e dourada que brilhava à luz do sol.

Boatos na época do seu nascimento diziam que era mestiço, filho de um soldado americano com uma índia.
Mas tudo não passava de uma brincadeira, até isso chegar aos ouvidos de algum general bêbado que não admitia miscigenação racial, e nem uma piada tola. Sem dar muita satisfação, chacinou toda a aldeia de seu povo.
Mas isso é passado, e outra história.
O que aconteceu não entristece mais Pequeno Sol e seu povo se juntou à Grande Tribo, onde irmãos não precisam matar uns aos outros e não precisamos mais caçar, matar nossos irmãos animais para sobreviver.
- Ah! -disse o Grande Chefe, como se lembrasse de algo trivial - Este é Nergal, um feiticeiro Druida desta ilha.- E este Lobo Branco sem educação, é meu filho, o Xamã. Disse o cacique ao seu novo amigo Druida.
Baixei a cabeça em respeito e vergonha. Então Nergal olhou para o homem-urso e disse:
- Saudações jovem Xamã! Este urso fedido é Borek! Borek, cumprimente-o!
Ordenou o Druida.


Ele esticou a mão meio resignado e a contragosto.
Olhou-me seriamente nos olhos para me cumprimentar.
Embora eu ainda quisesse pular em seu pescoço e arrancá-lo com todas as minhas forças, não podia ser rude em não retribuir a saudação.
Apertei sua mão, então ele me puxou para perto dele, me abraçou e riu alto. Senti um cheiro de suor horrível, e uma falta de ar. Desvencilhei-me dele, recebi um tapa nas costas e um olhar seu de reconhecimento. Falou algo em voz alta que não entendi, e saiu-se de perto de mim.
Quando voltei minha atenção aos dois anciãos, notei que Nergal estava com o meu papel nas mãos:
- Esta mulher que você procura, trabalha em uma loja mística. Ou pelo menos trabalhava lá. Esse lugar fica nos arredores de Londres. Concentre suas energias no que anotei e você chegará lá, explicou o Druida Nergal.
Agradeci humildemente, e o resto da minha tribo se aninhou próximo ao Grande Chefe quando este se levantou. O Cacique e Nergal se abraçaram, conversaram algo que não entendi e se afastaram cordialmente.
Um portal se abriu. Grande Chefe me olhou sorridente e perguntou:

- Quem vai me levar de volta?

Meus irmãos que estavam ao meu redor, um deles lembrou:
- Pequeno Sol lutou bravamente!
Olhei por reflexo para meus irmãos, e Lobo Cinzento acenou com a cabeça positivamente.
- Pequeno Sol os levarão, podem ir.
Nosso jovem lobo abriu um sorriso, retornou à forma lupina e falou alto:
- Eu vou à frente, vocês me sigam, anunciou Pequeno Sol exultante.
Todos riram, "Nunca mais digam isso a ele!", brincaram enquanto entravam no portal e retornavam à tribo.
Mentalmente pedi a Lúcia que fosse com eles. -"Nem pensar", disse ela.
Então por fim meu povo se foi. Eu fiquei, pois ainda tinha um lugar para ir e uma pessoa para achar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Orquídea Negra- Parte 01

Escrito por Xamã.



“E a noite quando o lobo uiva... ouça bem e você poderá me ouvir gritando”
-Ramones, Pet Cemetery

Em algum lugar do Brasil, noite.

Adormeço...
Sinto que não estou mais em meu corpo físico. Absorvo as energias a minha volta, respiro fundo.
Me concentro aonde devo ir: imagino uma luz me envolvendo abaixo de meus pés, caio dentro dela e surjo no céu, alguns metros acima da casa da Mulher Gavião.
Sem me importar que eu esteja caindo, me transformo quase que inconscientemente em um lobo branco, parando em pé de frente a sua casa.
Ponho minha pata esquerda a frente, e mais uma vez, até de repente voltar a ter um pé humano, e outro, voltando a minha forma física.
Passo pelos cães que não notam minha presença, atravesso a porta e me dirijo a seu quarto.
Quando entro, percebo que os gatos me vêem. Erguem a cabeça, dois miam, e a maioria apenas abre de leve os olhos e volta a dormir, como se minha presença não importasse.
De fato já me viram várias vezes fisicamente e espiritualmente, mas nunca deixo de me espantar que em espírito também sou notado por eles e, em meio a felinos com visão espiritual espalhados na tv, cômoda e dividindo a cama com sua dona, os deixo de lado por um minuto e me aproximo dela.
Aproveito que está dormindo para acariciar seus cabelos, e falar com ela de maneira gentil (duas coisas que costumam ser difíceis quando ambos estamos acordados).
- Como você está?-Pergunto.
Então escuto as reclamações de sempre, coisas do dia-dia, até que algo que ela diz chama minha atenção:
- Ando sentindo que Orquídea Negra tem pensado em mim ultimamente. Estou preocupada que ela resolva vir pra cá. Não quero essa mulher aqui, se puder dar uma olhada, por favor.
- Claro, sem problemas, só vou ver se a Pratinha está no escritório.
- Tudo bem, obrigado. A Pratinha não apareceu mais.
Orquídea Negra é a irmã mais nova da Mulher Gavião. Nunca se deram bem, e apesar do Elo Cármico que as obrigou a nascerem na mesma família, após a morte dos pais, Mulher Gavião que havia enterrado sozinha os dois, limitou-se a ter o mínimo de contato com Orquídea Negra.
As últimas notícias que Mulher Gavião tivera de Orquídea Negra, eram de que ela “tentava” praticar Wicca moderna e que estava na Europa. Orquídea tem afinidade pela Inglaterra, mas com a crise na Europa, a xenofobia típica dos ingleses se acirrou e ficou desempregada, para não “roubar empregos” dos ingleses.
Assim, se refugiara recentemente na Espanha, onde as duas herdaram nacionalidade pela mãe. Orquídea Negra torrou sua herança nas suas andanças na Europa e agora desempregada e sem dinheiro, estava vivendo de favores de amigos. Seu desejo era se casar com um inglês, para obter a cidadania inglesa e para isso, estava planejando viajar com o namorado inglês e interesseiro para o Brasil, onde iriam atormentar Mulher Gavião com seus problemas. Mulher Gavião já havia sido alertada sobre essa possibilidade:
-É a velha história da Cigarra e da Formiga. Ela curtiu, gastou, dançou e viajou. Eu fiquei em casa, trabalhando e guardando. O inverno chegou e ela está sem nada. Mas ela vem com uma caneca na mão e uma faca na outra, para me apunhalar. A vida inteira foi isso. Não os quero aqui, concluiu Mulher Gavião para o Xamã.

Orquídea Negra tinha formação em Artes. Não se sabe porque, resolveu bancar a terapeuta wiccana na Europa. Misturava tudo. Como não tinha base e nem conhecimento adequado, seu empirismo causava danos e ofendia as entidades antigas da magia celta.
Para ser bruxo, roupas bonitas e gestos curiosos podem fazer sucesso em uma festa à fantasia, mas para trabalhar com magia de verdade, isso é supérfluo, banal. Orquídea Negra assim, colecionava poucos amigos e muitos inimigos poderosos. Mas com a mente imatura e corrupta, ainda não enxergava os males que vinha fazendo.

Pratinha é a gata cinza com branco da Mulher Gavião, que conversa por telepatia conosco.
Ela também foi a primeira gatinha que se aproximou de mim quando fui para casa de mulher Gavião.
Eu e Pratinha dormimos, comemos e brincávamos juntos.
Enfim, ela é minha gata preferida, e tamanha é a afinidade que temos que depois de um tempo passei a escutar o que ela dizia. Até aí normal (dentro do possível de normalidade), já que gatos podem ver o outro lado, o lado espiritual. Gatos são Portais do outro Mundo naturalmente.
Qual o problema em falar? Porém a Pratinha conversa conosco quando estamos acordados também, e eu entendo tudo.
Levanto da beirada da cama, alimento por uns segundos que ela está dormindo no escritório, mas a esperança some quando abro a porta e não a vejo lá. Resmungo um “merda”, tento me conformar, a minha gata preferida adora sair e caçar, adora ficar sumida por meses e depois voltar.
Ela diz ficar entediada em casa então some mundo afora, e que se dane se estamos com saudades. Nisso sinto algo estranho do lado de fora, fazendo-me esquecer da saudade felina.
Uma das precauções que tomei quando reaprendi a mexer com magia, foi erguer defesas na casa, defesas estas que se tornaram mais fortes ainda quando entidades antigas, bondosas e poderosíssimas começaram a proteger Mulher Gavião e sua casa. Mas daí vem o eterno problema: mesmo sendo forte e segura sempre haverá alguém disposto a transpassá-la, e desta vez não foi diferente: Alguém está tentando passar.
Retorno na forma de lobo, dou um salto para frente, saio para o quintal, me concentro para sentir a energia a minha volta, percebo algo irregular em uma das extremidades da barreira, seguido de um fedor horrível de carniça.
Corro em sua direção, salto diretamente sobre a coisa.
É noite, não consigo ver bem quem ou o que é.
Parecia mais um trapo velho, mas suas mãos ardem, queimam.
Sem pestanejar, abocanho aquilo.
Mordo e rasgo em pedaços, a coisa grita alto. Eu uso mais força, até os gritos pararem e eu sentir sua forma se despedaçar, esvaecendo como fumaça.
Dou um uivo alto, tanto para celebrar minha vitória quanto para demonstrar que estou por perto, um aviso em alto e bom som, mas meu júbilo é interrompido pela visão de um outro lobo.
Uma fêmea cinza, parada alguns metros, me fitando como se estivesse me analisando.
Lúcia, minha amada Lúcia.
- Defesas mágicas para casa - diz ela enquanto caminha na minha direção - gata tagarela, e claro, a primeira coisa que fez foi ver sua amiga e bancar o lobo mau do tamanho de um cavalo contra um pedaço de nada. Eu sempre me pergunto se deveria sentir ciúmes, observou Lúcia, a Loba.
Embora até goste desse tipo de humor seco, sei que há um fundo de verdade no que escuto, há uma ponta de ciúmes que deve ser apenas a ponta de um iceberg enorme. Então enquanto vou ao encontro dela tento desconversar:
-Ah, eu sou homem, tenho complexo natural em relação a tamanho, e o lobo mau nas histórias tinha pelo preto, eu sou branco. Além disso, sou digamos... meio lobisomem. Daí devo me apresentar no tamanho normal. Ah sim, e minha amiga é uma tigresa, casada e com filhos. Minha preocupação é diferente de interesse.


Tocamos-nos, focinho com focinho, cheiro seu pêlo, seu pescoço, me sinto em paz, feliz.
-Agora, deixa isso de lado, quero saber de você, quero matar a saudade de você.
Ela acena com a cabeça e esquece do assunto, andamos um pouco pelo lado de fora da casa, até eu me convencer de que está tudo bem, vejo alguns espíritos aliados e os cumprimento.
Mas ao longe, não quero envolvê-la mais do que já a obrigo a se envolver:
- Lúcia, vamos embora?
- Para onde? Ver sua tribo?
- Depois, primeiro preciso encontrar alguém.
- Sei que vou me arrepender de perguntar, mas quem?
- Uma mulher, Orquídea Negra, irmã da Mulher Gavião.
- Além de ser uma mulher é irmã da sua amiga? Você sabe ser romântico não?
- Me desculpe, mas eu tenho coisas a fazer, se quiser pode ficar na tribo.
- Óbvio que não! Eu vou com você!
-Certo, vai ser rápido, não se preocupe.
-Para onde vamos?
-Espanha.
“Vai ser rápido, não se preocupe.” Se Deus estivesse me escutando nessa hora, provavelmente estaria rindo e eu não teria engolido sete pessoas vivas.
De certo modo eu devia ser grato por não me lembrar dessas coisas quando eu acordo.
“Não te esqueças que eu te dei meu coração”
- Placido Domingo, Core 'ngrato
Espanha, madrugada.


Mais uma vez mentalizo uma luz envolvendo a mim e Lúcia, caímos dentro dessa luz.
Abri um Portal Xamânico e viajamos por dentro dele. Quando o túnel de luz se foi, paramos em frente à Catedral de Santiago de Compostela na Espanha.

Em frente ao magnífico monumento, não víamos ninguém: nem espíritos e nem vivos.
- Eu sempre gostei deste lugar. A catedral é linda, observei.
- Tá, ta bom, vamos atrás de Orquídea Negra e vamos logo pra casa, apressou-se Lúcia.
- Melhor não andarmos por aí como lobos gigantes, podemos chamar muita atenção. Vamos usar uma forma humana, observei.
- Não, eu vou ficar assim, disse Lúcia.
-Tudo bem minha loba amada, eu não sei porque nunca me deixou te ver na forma humana mas seja lá como você for continuarei te amando igual, expliquei a ela.
- Não adiantaria nada meu lobo amado, pois a primeira coisa que você faz é me esquecer quando acorda, observou Lúcia.
-Olha, já discutimos isso, é involuntário da minha parte, ok? Se não quer mostrar sua forma humana eu respeito, mas pelo menos diminua seu tamanho para o de uma loba normal, concluí.
Assumi a forma de um cavaleiro medieval europeu, trajado uma armadura preta e dourada. Lúcia diminuiu seu tamanho para o porte de um lobo normal.
No pátio da igreja onde estávamos não passava ninguém. Queria perguntar por informações, mas nem uma alma penada sequer aparecia.
- Não sabia que os espíritos dormiam a esta hora, observei.
- Claro que não seu bobo, só devemos achar um meio de falar com eles, explicou Lúcia.
- Hum, minha mãe tinha um livro de São Cipriano, onde se descrevia um ritual de ficar dando voltas ao redor de uma igreja, até uma alma aparecer.
- Essa é sua idéia? Andar ao redor da Catedral? Você já viu o tamanho dela? Reclamou Lúcia.
- Tem alguma idéia melhor?
- Que tal uma invocação? Podíamos desenhar um pentagrama na...
- Pentagrama? Na porta de uma igreja? Perguntei espantado.
- Claro, porque não? Eu odeio cristãos mesmo! Disse Lúcia.
- Lúcia, você...
De súbito vemos um homem com roupas da guarda espanhola, com uma lança em riste caminhando firme em nossa direção.
-Alto! Quem vem lá!? Perguntou o guardião espanhol.
Me chamo Miguel Colaço, estou à procura de uma mulher aqui na Espanha. O senhor poderia me dizer onde posso obter essa informação?
- Que tipo de mulher espera encontrar na frente da catedral a esta hora? Indagou o guardião espanhol.
- Ela é encarnada, se chama Orquídea Negra.
- Encarnada?-O guarda baixou a lança e coçou a cabeça para pensar a respeito, e nisso se ouviu um grito alto ao fundo e um homem acompanhado de cerca de 10 soldados com o mesmo uniforme correu à minha frente.
- Soldado Gonzalez! Que se passa aqui? Perguntou o militar.
- Me chamo Miguel Colaço - repeti cortando a fala do soldado – procuro por uma mulher encarnada que vive aqui na Espanha.
Provavelmente a julgar minhas roupas o chefe dos soldados concluiu que eu deveria ser um nobre ou coisa parecida. Então fez uma saudação militar e depois me estendeu a mão.
- Sou o capitão Castillo, chefe dessa guarnição. Meu turno está movimentado hoje! Ao que parece surgiram do nada, no meio do pátio da Igreja, duas enormes feras gigantes que afugentaram todas as pessoas! As pessoas correram, a catedral foi fechada e me reportaram o fato, que agora estamos atrás das temíveis bestas.

De súbito eu senti um leve mal-estar, Lúcia não falou mais nada desde que os soldados haviam chegado e eles deviam achar que era uma loba apenas e mesmo com as palavras do capitão não abriu a boca. Os olhos dele pareciam ler o que eu estava pensando, mas ao tentar esboçar uma reação, ou uma desculpa, ele continuou:
-Enfim, ao que parece elas se foram, não é mesmo? Concluiu com um discreto sorriso. Mas me diga Dom Miguel, o que deseja saber vindo atrás dessa mulher?
Ignorei o Dom, embora tivesse certeza que era uma maneira educada de me tratar e não uma ironia. Sabia que minha bisavó era da Espanha, de onde herdei o nome Colaço mas pouco sabia da cultura e do trato social.
- Apenas saber aonde está, e se está bem. A irmã dela mora longe e está preocupada com ela.-E fato era de que embora existissem vários “poréns” na minha afirmação, não havia mentira nenhuma no que havia dito.
- Somente isso?
-Tem minha palavra Capitão.
-Bueno, vamos resolver isso então.
Ao que conversávamos havia perdido a noção do que ocorria a minha volta, pessoas de várias épocas voltavam a caminhar pela praça. A Catedral estava reaberta novamente, então caminhávamos em sua direção.
- Ah sim: seu cão fica do lado de fora, avisou o Capitão Castillo.
- Não é um cão, capitão, é uma loba, expliquei.
- Uma, fêmea? Claro! Então tudo muda! Pode trazê-la então, o problema são os machos! Entram e urinam em tudo! Observou o feliz capitão espanhol.
Andamos por um corredor comprido, e o capitão me contara que sua família havia servido por anos na Espanha. Que se sentia honrado de manter a tradição tanto vivo quanto morto no antigo reino. Comentou orgulhoso que tinha um descendente encarnado trabalhando durante o dia na restauração da Catedral.


A guarnição que comandava também havia lutado com ele em vida. Eram todos velhos amigos, irmãos de armas. Era um homem forte, de olhar franco. Com cabelos e olhos pretos, além de uma barba rala e de um andar firme. Mas que acusava um leve coxear. Talvez um ferimento antigo de guerra do qual ainda não tivesse abandonado da vida terrena. Talvez para alguns seja difícil entender, mas para um guerreiro, cicatrizes de batalha são motivo de orgulho, o que talvez pudesse explicar o porquê de ainda manter tal lembrança em seu caminhar.

Paramos de frente a uma enorme porta de madeira trabalhada, de dentro da Catedral de Santiago.
-Agora , disse o capitão , devemos esperar um pouco.
Aproveitei a pausa e me abaixei para acariciar Lúcia que se negava a virar humana, estava muda e provavelmente aborrecidíssima comigo.
-É um belo animal señor!– observou um dos soldados. Era gordo, e tinha uma cara de estúpido.
- Sim, muito bela! – respondi enquanto acariciava Lúcia.
-Deve ser uma bela companheira!- retrucou, e dessa vez abria um sorriso estúpido, com os dentes arreganhados enquanto balançava a cabeça freneticamente, então entendi o que ele REALMENTE queria dizer sobre Lúcia ser bela e companheira.
- Oh não! Não! Não! Não eu...Gaguejei tentando explicar o inexplicável.
-Sanchez!-interveio o capitão - Por Deus homem! Pare de constranger o pobre rapaz! Como ousa falar um absurdo desses? Nem todos são como você!
-Acredite você, rapaz, que este monte de estrume quando vivo gostava da companhia de vacas, cabras e ovelhas! Foi uma dificuldade tirar isto dele! Toda vez que alguém aparece com um animal aqui ele imagina uma besteira dessas!Explicou o Capitão.

Eu havia ficado com um leve mal-estar da confusão de nossa chegada, mas agora estava totalmente desconfortável com a situação. Claro que eu nunca havia visto a forma humana de Lúcia, embora soubesse que era humana. Mas sempre que tivemos relações amorosas foram na forma de lobo. Ambos na forma de lobo. Logo, diferente dele, nunca havia praticado zoofilia. Ainda assim, havia um fundo de verdade na insinuação daquele infeliz, e era isso que me deixava constrangido.
Para piorar, Lúcia para se vingar (creio eu) começou a abanar o rabo, cheirar minha virilha e a pular em cima de mim, querendo lamber meu rosto, o que fez os soldados rirem ainda mais.
- Silêncio vocês todos! Sanchez! Peça desculpas imediatamente! Gritou o capitão tentando encerrar o constrangedor assunto.
Com a bronca, todos silenciaram, então o gordo sorriu mais uma vez, estendeu a mão e pediu desculpas. As aceitei imediatamente, queria dar um fim naquilo tudo de uma vez.
- Eu sei que o senhor nunca... – e fez um gesto simulando sexo – com sua cachorrinha, só estava brincando, me perdoe!
Apenas balancei a cabeça, não queria mais ficar naquela maldita conversa, alguns soldados deram um tapa nas costas dele. Capitão Castillo pôs a mão no meu ombro e disse:
- Ele é apenas um pombo gordo, ignore-o!
- Capitão eu...
-Ah finalmente! Nossa vez!
Entramos em uma sala pequena, mas com um teto que parecia chegar ao céu, com uma pilha de livros velhos, lembrando muito uma biblioteca medieval. Lúcia ficou do lado de fora. Enquanto eu olhava boquiaberto o local, o Capitão tomou a palavra:
- Velho desgraçado! Faça algo útil na sua pós-vida miserável! Ajude Dom Miguel a achar quem ele quer! Disse dirigindo a palavra a um idoso bem enrugado que se debruçava sobre um enorme livro em uma mesa central na ante sala.
O velho não se alterou.
Percebendo a insistência do Capitão Castillo, resmungou:
- Há 3 tipos de humanos que eu odeio: Índios, Ingleses e Sul Americanos! E você, meu rapaz, tem os três! Anunciou muito bravo com a minha presença.
“No além, seja educado acima de tudo.” Meu mestre sempre me falou isso. Ia esboçar uma resposta, mas novamente ouvi o capitão:
- Maldição! Se não gosta deles então dê o que ele quer para que saia logo da sua frente!
Pensativo, o velho concordou com o Capitão. Então pesquisou o nome que lhe dei.
- Viu o que eu falei? Só me dão trabalho! Ela não está aqui! Não está aqui! Repetiu .

Então ele pegou um pedaço de papel, e começou a escrever algo: - Nosso poderoso senhor - disse, fazendo o sinal da cruz - colocou homens e mulheres de bem na Espanha. Depois jogou bêbados, retardados, miseráveis, prostitutas e todo tipo de devassas e bastardos numa ilha!!Falava enquanto escrevia freneticamente.
Sua mão trêmula me entregou o papel que havia escrito. Haviam letras que eu não entendia e um desenho que embora se mexesse, de certo modo fazia sentido.
- ...E Ele batizou aquele antro de desgraça como Inglaterra! Concluiu o velho livreiro.
E era para lá que eu deveria ir.

Inglaterra.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Entre a Luz e a Escuridão

Aqui se faz, aqui se paga...
Nunca esses velhos ditados soaram tão presentes na minha cabeça.
Não tem nem um ano direito em que eu, Gavião Negro e o Xamã, enfrentamos a duras penas entidades baixas e perversas. Enviadas por uma Feiticeira de Candomblé para me separar do Gavião Negro.
Sua ex-mulher, Madame Loira, não aceitava a separação e fez de tudo quanto é tipo de amarração para impedir o divórcio. Desde roupas íntimas enterradas com sangue em encruzilhadas perdidas a inhames espetados e flambados no óleo de Dendê jogados dentro da casa da mãe dele. A minha sorte é que meu amigo Xamã tem uma linha da Umbanda muito forte, e eu tb aprendi a pedir a proteção dos Orixás:
Oxum, Ogum, Iansã, Oxalá e Iemanjá ficaram do meu lado, e pouco a pouco liquidamos tudo de maligno que havia sido feito.
Não foi fácil, nem rápido.
Em nossas incursões espirituais fomos atacamos várias vezes, e eu praticamente ficara impedida de falar e de me aproximar do Gavião Negro, pois as entidades sem forma o controlavam e o afastavam. As entidades baixas me atacavam e eu sofria cãimbras, diarréias e vômitos para que eu não me aproxima-se dele.
Por muito, muito pouco ele não sofreu um acidente de carro ou foi demitido. O Guia Espiritual de Gavião Negro, Seu Ichibata, ficou do lado dele o tempo todo defendendo-o.
Quando achamos que o pior havia passado, eis que Madame Loira me arruma um Feiticeiro Vudu.
Pois é. Vudu. Putz, eu nem sabia que no Brasil tinha vudu. E não é que o cara é igualzinho ao Feiticeiro Vudu do filme da Disney??
Pois é, a Bruxa da Branca de Neve é uma fada perto desse cara...
O desenhista que criou o personagem estudou muito bem seus praticantes.
O Feiticeiro Vudu está perfeito.

Tivemos que aprender vudu. VUDU!

Xamã conseguiu achar no Mundo Espiritual, um Mestre Vudu do Haiti, que estava se redimindo para poder evoluir. Foi a nossa sorte, pois o feitiço que depende da força do Barão Samedi, ia atingir seu ápice na sexta-feira à meia-noite. Quebramos o feitiço a tempo e Madame Loira surtou.
Madame Loira surtou tanto, que ela foi lá no vuduzeiro dela gritar com o homem. Louca. Vimos tudo pela 3ª visão.

O Mestre Vudu de Madame Loira não entendia nada. Como um feitiço Vudu, feito por ele, onde foram usados cabelos da vítima em um boneco vudu, consagrados e tals, não havia funcionado?? Ele não entendia, e resolveu abrir seus ossos para entender a situação:

-Seu ex-marido se encontrou com uma mulher antes de sexta-feira. Por causa disso que o feitiço não funcionou com vc, explicou o Feiticeiro.

-Quem é essa mulher?? Vociferou Madame Loira.

- Não consigo ver, tem alguém a escondendo. Proteção vudu.Quem desfez o feitiço, sabia o que estava fazendo, conhece muito bem o Vudu. Pois só deixou uma coisa aberta, e era para me frustrar.

- Como assim, perguntou Madame Loira.

- A Mulher que se encontrou com seu ex-marido, estava nos seus dias de sangue(menstruada) por causa disso, o elo entre eles ficou muito forte. O sangue na nossa cultura vudu é um ingrediente muito forte. Quem fez isso, é muito matreiro e me fez de idiota, disse o Feiticeiro.

-Mas afinal, quem desfez meu feitiço, eu quero saber!!!Eu quero saber quem é esse cara que desmancha tudo o que eu faço!Ordenou Madame Loira. O feiticeiro, já irritado com a arrogância da mulher, se concentrou e jogou seus ossos:

-Humm...Muito estranho..E jogou os ossos de novo: -Não entendo, mas o quadro se repete. Mas eu nunca vi isso..Refletiu.

-Madame Loira olhava para ele com raiva, frustração e impaciência:- Quem é esse cara??Quem está desmanchando tudo que eu faço???

-Olha Madame, eu nunca vi isso, eu nunca vi tanta magia numa pessoa só, eu nem achava que uma pessoas dessas poderia estar viva andando entre nós.

-Como assim?? Questionou curiosa Madame Loira.

- O sujeito que está desmanchando tudo o que vc está fazendo, é um feiticeiro muito antigo. Ele é novo nas artes do vudu, mas o Mestre dele é muito antigo, tão antigo que posso jurar que o mesmo é discípulo direto do Barão Samedi, por mais louco que isso possa soar. Eu trabalho na linha do Barão Samedi. Mas este cara, parece que é discípulo dele, mas isso seria uma coisa simplesmente impossível, mas é o que aparece aqui. Disse ao examinar os ossos.

-Mas como podemos acabar com ele? Podemos refazer o feitiço? Perguntou Madame Loira.

-Olha senhora, eu não vou me meter com esse cara não. Eu Lido com Vudu à 16 anos e nunca vi uma coisa dessas. E mais, disse enquanto fazia uma nova leitura de ossos: - Esse cara, que desmanchou o feitiço que a gente fez para trazer seu ex-marido de volta, ele tem 5 linhas de Magia: Umbanda, Xamanismo, Wicca, Vudu e mais outras que eu não decifrei. Eu não posso com isso e nem vou enfrentá-lo. É como se eu joga-se uma pedra, e ele me atira-se 5 de volta. Não tenho como me defender dele! E quanto ao feitiço, fizemos um feitiço sexual muito forte. Foi rompido por outra mulher em dias de sangue, então ele está ligado nessa outra mulher(Mulher Gavião), é um feitiço que somente se faz uma vez, por que ele é muito forte. Não temos mais nada que possa ser feito.

Mas Madame Loira ficou possessa. Não aceitava: - Eu estou pagando! Eu quero resultados!! Ordenou.

Resignado e curioso, o Mestre Vudu de Madame Loira telefonou para sua amiga: Feiticeira Negra:

-Alô?? Fulana?? Me conta Fulana, vc descobriu quem desmanchava seus feitiços???

A Feiticeira Negra, assustada com o questionamento respondeu:

-Vc ainda está trabalhando para essa mulher??Eu falei que eu tinha a mandado aí para me livrar dela, não faça nada para ela, é a Morte, é a Morte!!

-Do que vc está falando mulher? Quero saber se vc descobriu quem é esse feiticeiro que está desmanchando os nossos trabalhos. Aqui apoareceu um velho xamã, o que vc viu fulana?

-É a Morte homem, mande essa mulher embora!! Alertou a Feiticeira Negra. Veio uma Naja negra gigante, com uma Nanã montada nela e quase me matou! Até hoje eu só durmo à base de remédios.Meus bloqueios não a seguraram. É a morte, mande essa mulher embora, não vale a pena, repetia a Feiticeira Negra.

Mais intrigado ainda, o Mestre vudu de Madame Loira ficou pensativo e resolveu se conectar com seus mestres espirituais. Disse que ia meditar, que precisava ficar sozinho e se trancou em uma pequena sala.

Afe... O vudu é uma religião muito antiga, então entre ossos, velas pretas, sangue de galinha e pó de cadáver, o homem entra em conexão com o astral meio via-lenha/vapor. Mas quando ele conseguiu, deu de cara com o Xamã, que ADORA se transformar numa grande Naja Negra (nada a ver, mas ele gosta, fazer o quê). O Xamã apertou tanto o homem, que ele quase morreu de susto:

-Vc vai parar de fazer qualquer coisa para essa mulher, senão eu venho te buscar! Gritou o Xamã.

-Sim, sim, sim, disse estremecido o pobre bruxo.

-Eu quero que vc mande ela embora agora! Vociferou o Xamã, enquando se transmutava para um Feiticeiro Vudu e marcava o pobre homem no peito com símbolos e códigos vudus. -Faça o que eu mando, pois logo eu virei te buscar, sentenciou.

E o pobre mestre vudu, que não havia entendido nada do que havia acontecido, saiu em desabalada carreira do quartinho que usava para meditação e correu de sua casa Madame Loira:

-Desgraçada, por sua causa eu condenei a minha alma! Vadia!! Vá embora daqui! Suma daqui e não me apareça nunca mais.

Madame Loira, acostumada a mandar e não a ser desmandada, não entendeu patavinas:

-Está louco homem, o que deu em vc??

-Suma daqui desgraçada, gritava o Feiticeiro. - João!!! Solte os cachorros!! Gritava enquanto jogava mesas e cadeiras, tudo que tinha pela frente na direção de Madame Loira. Assustada, ela saiu em disparada com seu carro.

Após se livrar de Madame Loira, o Feiticeiro vudu desesperado foi ao banheiro se lavar, para tentar tirar as marcas que o Xamã lhe havia feito: -Meu deus,meudeus, repetia enquanto esfregava o peito. Um de seus ajudantes ao observar o desespero de seu mestre disse: -Mas mestre, o senhor disse mesmo outro dia que essas marcas não saem mais...-Saia daqui imbecil, gritou o Mestre Vudu, desesperado. Pegou o telefone e ligou para a Feiticeira Negra. A pobre que já estava dormindo, foi arrancada da cama pelos gritos dele ao telefone:

-Desgraçada! Desgraçada! Por sua causa eu entreguei minha alma, a Naja veio aqui e disse que ia me levar, Gritou desesperado.

-Eu te avisei, eu disse para vc se livrar dela, completou a Feiticeira Negra.

-Meudeus, meudeus, gritava atordoado. O que é isso? Uma naja gigante? Eu nunca vi isso? Isso é Magia da Índia? Perguntou completamente perdido. -Eu não sei nada de Magia Indiana, completou. Desgraçada, vc que mandou essa mulher aqui, eu vou te matar, eu vou te amaldiçoar, se eu for para o inferno vou te levar junto!!Gritava para a Feiticeira negra.

Após esse episódio, me dei ao luxo de dar boas gargalhadas, pois não achei que fossemos nos livrar do Mestre Vudu tão rápido. A Feiticeira Negra havia nos dado muito mais trabalho, e tivemos muito mais dificuldades em enfrentá-la.

Mas, aqui se faz e aqui se paga. Quando finalmente Madame Loira concorda em não mais faltar às audições do divórcio e entrar em negociação, eis que surge um novo fato: Toda a sua família, inclusive ela, caíram gravemente doentes.

E lá vai Gavião Negro: acode um, leva para o hospital o outro, passa o dia com eles. Fico puta, mas ele está certo: - Não posso abandoná-los agora, eles precisam de mim, explicou ele.

-Mas lembre-se de tudo que ela te fez, ela pintou e bordou nas suas costas, por muito pouco vc não morre. Tome cuidado, por favor, supliquei.

Ao meu pedido, o Xamã visitou a família e ficou horrorizado. Descobriu que todas as mandingas feitas por Madame Loira, tinham vindo para pegar seu pagamento em sangue. As entidades perversas, convocadas por Madame Loira e Feiticeira Negra para amarrar o Gavião Negro, estavam cobrando pelos serviços prestados. E cobrando muito, muito caro.

O Xamã visitou a casa deles, limpou um pouco o pai e a mãe de Madame Loira. conversou com os guias da família e bloqueou espiritualmente a casa. Mas sabe que é temporário, que Madame Loira sem saber, leva o mal para a sua família. Gavião Negro os levou para vários médicos, laboratórios e Hospitais.

-E aí, perguntei, o que os médicos disseram?

-Ninguém sabe nada, ninguém fala nada. Só pedem exames e mais exames que não chegam a conclusão nenhuma, disse resignado.

O Xamã foi até a porta do Cemitério conversar com seu Zé, Exu Caveira e Papa Meia-noite. Ao descobrir que fora a Feiticeira Negra que havia atacado a família de Madame Loira, o Xamã finalmente descobre a entidade convocada por ela:

Nem o nome pode-se pronunciar. Nem forma a coisa tinha.

-Em consideração a seu Zé - disse a coisa que mora no Cemitério e que não tem forma - vou dar 3 meses de saúde para eles. E só. Por que quem tem dívida a pagar, está dentro daquela casa. De uma entidade que não tem nada a perder, até que ela foi generosa.

É o que seu Zé sempre fala: "Os humanos são engraçados. Pedem o mal dos outros e acham que não vai acontecer nada a eles depois. Sempre tem um preço muito caro, que é cobrado com juros e correção monetária."

Enfim, 90 dias é muito pouco, e não temos mais tempo para ficar sugerindo que pensem em procurar ajuda espiritual. Gosto de resolver as coisas direto ao ponto:

-Gavião Negro, disse-lhe, vou pedir para o Xamã procurar um Centro de Umbanda bom perto da casa de vcs e conversar com os guias de lá. Assim, que ele descobrir, eu te passo o endereço. Vc vai lá sozinho, explica a situação da família de Madame Loira e veja que dia eles poderão ser atentidos. Nesse dia vc não fale nada a ninguém, pegue todo mundo, coloque no carro e leve-os para lá. MACUMBA SE TRATA COM MACUMBA. Não vai adiantar nada vc levar em qualquer hospital ou até Centro Espírita. Madame Loira vai ter que rebolar para acalmar essa Linha da Esquerda.

Dura lição de Madame Loira. Pediu nossas cabeças e que meu útero e seios secassem. Conseguimos cortar todos os males, mas eu só pedi proteção. Nunca pedimos nada contra ela. Porquê tudo que vai, volta. Sempre.

E agora, os que foram mais afetados pela sua maldade: Gavião Negro e Xamã, são os que mais estão ajudando-a a reencontrar o caminho da luz e o amadurecimento espiritual.

Toda vivência é uma grande escola.